Wednesday, March 7, 2007

A Ir. Celeste e o Refeitório Rosália Rendu

Quem sobe a grande escadaria de pedra basáltica que dá para a capela das Irmãs Vicentinas na casa Provincial, Campo Grande, Lisboa, dificilmente poderá adivinhar a vida que se esconde mesmo por debaixo dos seus pés. É quase num “vão de escada” que a Província Portuguesa das Filhas da Caridade realiza um projecto pioneiro em Portugal, 100% vicentino, de ajuda a uma população pobre e vulnerável: os imigrantes indocumentados.

O projecto de apoio aos imigrantes em condições de grande precariedade nasceu em Maio de 2005 e é fruto de um acordo entre a Companhia das Filhas da Caridade, o Serviço dos Jesuítas aos Refugiados e à ACIME (Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas). Chama-se Refeitório Beata Rosália Rendu (1786-1856) em memória de uma Filha da Caridade francesa que se distinguiu pelo serviço a favor dos mais desfavorecidos. É um espaço pequeno, mas acolhedor, no qual podemos encontrar, à hora do almoço, algumas dezenas de imigrantes. Estivemos no local onde conversámos com a Ir. Celeste, responsável pela organização da iniciativa. Quisemos dar a conhecer esta realidade àqueles que são vicentinos, bem como aqueles que estão envolvidos, directa ou indirectamente, neste tipo de actividades. Na pequena “Arca de Noé” que se esconde debaixo da monumental escadaria, ouvimos a Ir. Celeste:

«Alguns chegam cá com um ar que nem parece de seres humanos. Tomam banho, mudam de roupa, almoçam e levam comida para o jantar». Entre sorrisos tímidos e silêncios que escondem um certo embaraço, a Ir. Celeste descreve-nos situações dramáticas de jovens que chegaram a Portugal com uma mala cheia de ilusões e de promessas falsas: «pensavam que seria fácil encontrar um emprego, que poderiam rapidamente ganhar dinheiro para sustentar a família que ficou no país de origem, mas depressa se enganaram. Alguns abusam do álcool para apagar as mágoas e depois regressam ao Refeitório completamente transtornados. Já tive de chamar o INEM por causa de alguns que estavam em coma alcoólico. Outras vezes, tive de chamar a polícia. É uma tristeza ver gente assim…».

A Ir. Celeste conserva a simplicidade de uma camponesa. As mãos grossas, de uma pele áspera, denunciam um tempo em que era o braço direito do pai, em Sendim, Felgueiras, no cultivo das terras. Trabalhava de sol a sol, como um homem, até que aos 18 anos decidiu deixar tudo para se dedicar ao serviço dos pobres na Companhia das Filhas da Caridade. Esteve no Pousal, com deficientes profundos, depois em Alenquer e, posteriormente, na Madeira (Gaula) a trabalhar com idosos. Agora, com 25 anos de vocação, está encarregue da assistência aos imigrantes, uma nova forma de pobreza para a qual nem todas as irmãs estão sensibilizadas. Mas a Ir. Celeste não estranha o trabalho porque, na sua terra, desde cedo se habituou a ver os pobres comerem da mesma comida que lhe era servida por sua mãe. Actualmente é ela que serve os filhos e as filhas de tantos países e de tantas idades: proporciona-lhes refeições quentes e roupas limpas quando chegam sujos e molhados; assegura-lhes água quente para se lavarem; garante-lhes a organização dos espaços do refeitório e a sua limpeza para que não haja contágios. E é com a firmeza de uma mãe que acalma os ânimos daqueles que se exaltam facilmente por causa de um desentendimento. «Às vezes não é fácil manter um bom ambiente. São muito diferentes uns dos outros em muitos aspectos: os ucranianos, os africanos, os brasileiros, os indianos. Mas nós não fazemos qualquer diferença, mesmo no aspecto religioso. Aqui há um grupo maioritário de ortodoxos. Há também alguns muçulmanos a quem procuro garantir uma ementa sem carne de porco. Outros que são cristãos e, ainda outros, hindus. Respeito a religião de cada um e quando há “guerras religiosas” cá dentro, digo-lhes que todos somos filhos do mesmo Deus. Somos irmãos que devem viver como uma família».

Há pouco tempo, confessou-nos a Ir. Celeste, o Refeitório foi assaltado. Cegos pela ganância, rebentaram portas e janelas, desarrumaram roupas, vasculharam armários. No fim, levaram um computador (oferecido pelos familiares à Ir. Celeste pelos 25 anos de vocação) e algum dinheiro, pertença dos imigrantes. «Foi triste de ver – lamenta a Irmã – às vezes perguntam-me porque é que ainda continuo a ajudá-los depois do que aconteceu… Foi duro, até porque o dinheiro que tínhamos era pouco. E ficámos sem poder pagar os estragos causados. Estamos outra vez a recomeçar na esperança de que isso não volte a suceder».
Foi na “Arca de Noé” da Ir. Celeste que conhecemos Ktiuce. Está em Portugal há 18 meses com o marido. Tem um rosto de criança, mas já é mãe de uma menina de um ano e meio chamada Ana Júlia e está de novo grávida de seis meses. Diz-nos que a vida não lhe tem sido fácil. Quando deixou Minas Gerais, no Brasil, esperava encontrar outro mundo. E confessa a sua tristeza por ainda não ter um trabalho seguro. Gostaria de estar numa situação legal para viver dignamente em Portugal. Ana (nome fictício) também veio do Brasil a convite do marido. Quando cá chegou, caiu numa armadilha que nunca imaginara: o marido tinha uma casa de prostituição na qual a obrigava prostituir-se. A recusa de Ana levou a que ele a mantivesse presa, sozinha, em condições degradantes por vários meses. Quando se viu livre do lugar, entregou-se à polícia e actualmente está a ser acompanhada…


Laedish é de origem indiana. Cumprimenta-me efusivamente para logo pôr as mãos para o céu em sinal de agradecimento. Diz que fala português, mas apenas faz gestos: passa a mão pela roupa que veste e diz: «obrigado», apontando para a Ir. Celeste.


Durante o ano passado, foram servidas 10.492 refeições. Refeições completas, com primeiro e segundo prato. Refeições que alimentaram estas histórias, na maioria das vezes marcadas pela dor de quem se sentiu náufrago num mundo imenso, confuso e hostil. Refeições que mantiveram de pé aqueles que por serem de outra nacionalidade, experimentam, no quotidiano banal, a chaga da “estigmatização”. Homens e mulheres sem referências culturais e sociais, ora descriminados, ora injustamente explorados por “entidades patronais” sem escrúpulos.

«Eu sou portuguesa!», disse-me a Fátima (nome fictício) num sotaque perfeito, quando lhe perguntei de onde era. Mas a cor do cabelo, os olhos claros e a pele branca denunciavam a sua proveniência: é de leste, é russa. E ser estrangeira parece uma maldição de que nunca se poderá livrar. Será sempre assim, uma estranha, uma estigmatizada… Por isso, como ela, outras tantas centenas, sobretudo homens com idades à volta dos 30 anos, continuarão à procura, no “vão de escada”, de alimento, roupa, água quente e alguém que se disponibilize para ouvir as suas histórias, alguém que ampare as suas mágoas, que compreenda a impotência que eles experimentam ao sentirem-se excluídos de uma sociedade que julgavam ser a terra onde os sonhos antigos seriam realizados. Mas talvez amanhã seja melhor…. E a vida continua, só Deus sabe como!

(A obra depende das ajudas do Banco Alimentar, da generosidade das Filhas da Caridade e de alguns donativos. Aqueles que quiserem contribuir, podem enviar a sua oferta para Maria Celeste Lopes, Av. Marechal Craveiro Lopes, n. 10. 1749 – 011 Lisboa).



Texto e fotografia: Nélio Pita, CM

1 comment:

Maria do Carmo said...

Muito bonita a irmã. Gostei muito, sorria sempre assim.